28.4.12
Singular
Era uma manhã. Dessas que o ar cálido da madrugada cessa no momento em que as aves acordam e ouve-se os primeiros passos da vida acontecendo pela fria rua.
Acordou num suspiro longo, cerrado. Aquele seria um dia difícil.
Acordou num suspiro longo, cerrado. Aquele seria um dia difícil.
Teria um dia todo, cheio de 24 horas, estas que lhe somavam tantas primaveras e que desdenhava a cada segundo que passava. A vida lhe era um peso enorme. A morte, a perda, a morte de alguém ainda em vida. Não sabia como lidar ante tanto ruido no peito. Uma agonia pequena, que embora cheios fossem, os dias, lhe eram responsáveis pela nata inspiração de homem lobo.
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27.4.12
Ó
E queria mais uma coisa, além dessa nuvem que passa.
Um céu de casa, um céu rosado daquela janela que tanto me fez.
A vista de um pra sempre. Desanuvios, chuviscos.
Luz detardezinha que se esvai, mas que sempre volta.
Uma luz tão íntima, poesia minha, oração.
Um incenso, uma voz, um cheiro do melhor café do mundo.
Coisas mínimas, minhas, vidas.
Uma batida que no peito canta a saudade.
Quanto amor numa casa já tombada pelo tempo, histórica, monumento.
Quanto amor, na rosada descascada casa, quintal velho, portas velhas.
E minha janela, a mais linda do mundo.
Um céu de casa, um céu rosado daquela janela que tanto me fez.
A vista de um pra sempre. Desanuvios, chuviscos.
Luz detardezinha que se esvai, mas que sempre volta.
Uma luz tão íntima, poesia minha, oração.
Um incenso, uma voz, um cheiro do melhor café do mundo.
Coisas mínimas, minhas, vidas.
Uma batida que no peito canta a saudade.
Quanto amor numa casa já tombada pelo tempo, histórica, monumento.
Quanto amor, na rosada descascada casa, quintal velho, portas velhas.
E minha janela, a mais linda do mundo.
26.4.12
23.4.12
O Homem que Lê
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, em "O Livro das Imagens "
22.4.12
Tão sutil
Essa luz tímida que entra pela fresta da janela num singelo cumprimento.
Esse ar fresco, a garoa, o barulho das poças que sambam sob os carros, feira, pessoas, crianças, maçãs, guarda-chuvas, cinzas, cinza céu, cinza rua que desce sob minha janela.
Café, pão, chuveiro, toalha molhada, cobertor.
Uma voz , um universo comum.
Uma sutileza incomum.
20.4.12
Singular
Era um andar suntuoso.
Delineava-se nos rápidos socos pelos paralelepípedos,
deixando poeira, células mortas, e por vezes a marca do sapado nas poças de barro.
A sujeira aquarelava seu sapato, amadeirado solado.
Riqueza vista no trajar, no falar, e no cabelo de uma limpeza ultra-feminina.
Olhos, bocas, cabelos femininos.
Rouca voz que lhe traia as delicadezas.
Muitas coisas, idéias, sentimentos, anseios. Poucas palavras.
Poucas pessoas lhe rondavam a vida. Muitas a maldiziam.
Nascia assim o personagem, ríspido, cético, de um alter-ego no passado.
Um eu, Pessoa, meio Põe, Meio Sinclair.
Meio um de tantos, em muitos. Único.
Delineava-se nos rápidos socos pelos paralelepípedos,
deixando poeira, células mortas, e por vezes a marca do sapado nas poças de barro.
A sujeira aquarelava seu sapato, amadeirado solado.
Riqueza vista no trajar, no falar, e no cabelo de uma limpeza ultra-feminina.
Olhos, bocas, cabelos femininos.
Rouca voz que lhe traia as delicadezas.
Muitas coisas, idéias, sentimentos, anseios. Poucas palavras.
Poucas pessoas lhe rondavam a vida. Muitas a maldiziam.
Nascia assim o personagem, ríspido, cético, de um alter-ego no passado.
Um eu, Pessoa, meio Põe, Meio Sinclair.
Meio um de tantos, em muitos. Único.
19.4.12
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